sábado, 1 de janeiro de 2022

(Nº00025) (SERIE FOTOS SOMENTE DE AERONAVES COM PREFIXO PT) AVIÃO CAMAIR CAM-480A TWIN-NAVION (PT-ACN) (SOMECO) (CMTE.RUY) (SÃO PAULO-SP) (SBMT) (Nº00025)

(Nº00025) (SERIE FOTOS SOMENTE DE AERONAVES COM PREFIXO PT) AVIÃO CAMAIR CAM-480A TWIN-NAVION (PT-ACN) (SOMECO) (CMTE.RUY) (SÃO PAULO-SP) (SBMT) (Nº00025)






Por volta de 1958/1959, meu pai, que foi incorporador imobiliário a vida toda (fundou várias cidades no Brasil), pilotava um táxi aéreo Bonanza alugado sobre a floresta amazônica no estado do Pará, tendo já percorrido metade dos milhares de quilômetros até Manaus, sobre aquela extensão impenetrável de floresta tropical. Embora fosse um piloto experiente (como todos os seus irmãos, minha mãe, eu e meu irmão), que usava seus antigos aviões para se deslocar por todos os tipos de terreno em todos aqueles empreendimentos pioneiros, ele de repente percebeu que, se o motor do Bonanza apenas "tossisse", ele seria jogado bruscamente no topo das árvores altas, em pouco tempo, e sabia que isso não era um "bom remédio". Não, senhor!

O resto do voo transcorreu sem incidentes, mas ele prometeu a si mesmo que seu futuro avião (ou melhor, o de sua nova empresa - SOMECO S/A) seria um bimotor, com bastante capacidade de carga. Mas aí residia uma "pegadinha". Os fundos da SOMECO só serviam para, digamos, um Bonanza top de linha novinho em folha, com todos os recursos. Nada de bimotores.

Eis o "jeito brasileiro" de se acomodar. Ele soube que uma nova empresa localizada na Flórida estava convertendo Navions antigos em Camairs bimotores.

Humm, talvez ele pudesse comprar um Navion antigo e pilotável, enviá-lo "arrastando a barriga" para a Flórida por um piloto de sangue frio, que esperaria lá por alguns meses, durante os quais se familiarizaria com o novo modelo até que a conversão fosse concluída, permitindo-lhe voltar a pilotar o avião renovado para o Brasil. Como oficialmente não se tratava de uma importação de avião novo, não haveria impostos de importação nem aborrecimentos, então tudo seria acessível. Voilà!

Assim, o velho, desgastado e rasgado PT-ACN Navion foi adquirido "por bananas" e apenas os "remendos e pontos" absolutamente indispensáveis foram feitos, permitindo que o piloto e seus acompanhantes chegassem à Flórida em 10 dias, conforme a ordem estrita do meu pai: "baixo e devagar, perto de pelo menos campos de futebol e apenas algumas horas de voo por dia, desde que os céus estivessem no padrão "Brigadeiro Aéreo".

Bem, tudo correu como um relógio, e em cerca de 3 meses o avião iniciou seu voo para o Brasil ostentando tudo novinho em folha, mas com a placa de identificação e registro do antigo PT-ACN. Todas as opções possíveis relacionadas ao estoque de combustível foram encomendadas, bem como todos os aviônicos, rádios, etc. disponíveis. Uau! Dois motores Continental 260 com injeção de combustível! Tudo funcionando!

Em cruzeiro com cerca de 55% de potência (amaciamento dos motores), tudo correu bem, até quase sair do território da República Dominicana, quando, do nada, surgiu um velho e oleoso P-51D com o piloto sinalizando para baixar o trem de pouso e segui-lo. Como o plano de voo estava OK desde o início, houve trocas de sinais e nosso piloto tentou ganhar tempo para alcançar águas internacionais, mostrando documentos nas janelas, pois o rádio do Mustang parecia estar fora do ar.

Tentando acompanhar o lento Camair, o velho e enferrujado Mustang abaixou os flaps e o trem de pouso e insistiu. Nosso piloto, vendo a proximidade das águas internacionais, acelerou os manetes, mas uma rajada de projéteis traçantes dos 6 Colts .50, a cerca de 50 metros do avião, obrigou-o a baixar o trem de pouso e os flaps, acompanhando o piloto até um pequeno aeródromo próximo e empoeirado.

Sendo um cara legal, após o pouso, o Mustang fez uma passagem muito baixa sobre o Camair a cerca de 350 nós só para sacudir um pouco. E sacudiu mesmo no meio da poeira. Então, soubemos que alguma atividade rebelde estava preocupando o Senor Trujillo naquele dia específico e a segurança ditatorial foi reforçada.

Tivemos que ficar o dia todo até o cônsul brasileiro vir nos socorrer (depois de termos que pagar propina para um telefonema). Enquanto isso, soldados saquearam o avião. Tive que comprar minha Kodak (uma coisa simples, quadrada, de filme) do soldado, mas todos os rolos de filme foram confiscados. Finalmente, eles nos cobraram cerca de US$ 200 pelo uso do aeroporto e subimos. Bem, pelo menos nos divertimos dando a eles uma pequena revanche, mergulhando e fazendo uma passagem a mais de 200 nós em "nível de galinha" sobre suas cabeças, cobrindo-os com um pouco de poeira e correndo para o mar aberto (não sei se faríamos isso hoje).

O Alpha Charlie não era o que meu pai esperava; os motores eram sempre muito difíceis de dar partida e as baterias originais tinham potência insuficiente. Ele teve que encomendar baterias especiais. O CG central proporcionava uma atitude de cruzeiro "de bote", exigindo uma mão sensível no volante. A taxa de afundamento era excelente, se o seu objetivo fosse abrir um grande buraco no asfalto. Sem mencionar as boas qualidades de planeio de um tanque Sherman. O desempenho com um motor era problemático. Foi o primeiro avião digital: ou você está voando ou caindo. Ligado/desligado. Flaps? Sim/não. E a velocidade de cruzeiro não era lá essas coisas, especialmente para o hábito brasileiro de pilotar a maioria dos aviões com apenas 65% de potência naquele tempo.

Comparando o Camair com o então novo Cessna 310 (aquele com o leme inclinado), o Camair era inferior em qualidade, com desempenho inferior e ultrapassado. Mas, claro, era construído como um tanque, assim como o Navion, e a aceleração era estonteante e tinha uma boa subida. Chamava a atenção por onde passávamos. Exatamente como um muscle car.

Depois de algum tempo, meu pai tentou trocá-lo por outro avião, mas decidiu deixar a empresa e vendeu a parte dele para o sócio. Infelizmente, alguns anos depois, o avião caiu em Bauru, no estado de São Paulo, por falta de combustível. O avião sofreu perda total, mas, graças à sua construção à prova de balas, ninguém se feriu e saiu andando.

É isso. Espero que isso possa contribuir para sua excelente pesquisa e website.

Parabéns e continue com o ótimo trabalho.

Atenciosamente,

Ruy de Toledo Piza Filho
São Paulo-SP, Brasil












 

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